BRAZILCONZE BRAZILIAN ONLINE MAGAZINE, CULTURAL MAGAZINE Interview, Intrevista
Frederico Coelho
by Ana Lourdes Alvarenga

BRCZ: Das raízes à copa - De quem e para quem você nasceu?
Fred: Nasci de pai e mãe suburbanos, moradores do Engenho da Pedra, uma área pequena entre Penha, Ramos e Bonsucesso. Fui parido na Clínica Brasil-Portugal, em Cascadura e morei até os nove anos em três endereços diferentes da Penha; Rua Paul Miller, Praça Irmã Paula e Rua Soldado Paiva. De lá, vivi um ano nababesco no Jardim Paulista, São Paulo. Após, aportei e fiquei oito anos na beira da praia da Barra da Tijuca, aprendendo a viver isolado do resto da cidade. Dali, fui mais isolado, indo morar com meus pais em Jacarepaguá, perto da Estrada do Pau Ferro (nome poético). De lá, morei cinco anos na rua Coelho Neto, fronteira bucólica entre Flamengo e Laranjeiras. E hoje, por enquanto, estou há quase um ano em outra fronteira, Bulhões de Carvalho, entre Copacabana e Ipanema, na esquina da Sá Ferreira, pé do morro Cantagalo, a famosa região de Copacabema ou Sáfegnistão, para os íntimos. Para quem nasci? Para os curiosos.
BRCZ: O que a Zona Norte tem que as outras não tem ?
Fred: Superação. A ZN é um espaço de quem não tem quase nada fácil, desde transporte até lazer, desde colégios até cultura. Morar na ZN carioca é superar o medo do crime, o isolamento em relação ao lado nobre da cidade, o estigma de ser suburbano. Outra coisa que a ZN tem que a ZS não tem: a galera que sábado de manhã lava seus carros durante horas com som alto e cervejinha gelada. Diversão garantida para a rapaziada de cordão de ouro e as meninas de short de lycra apertado.
BRCZ: Você sente saudades do Spanish Harlem?
Fred: Muitas. Vivi cinco meses na 102 street, East Side. Em um prédio em frente a uma delegacia de polícia. Morar lá foi uma experiência e tanto, porque foi em 2000, numa época em que as pessoas classe média de Manhattan estavam começando a se deslocar para lá, ocupar o espaço que antes era dos afros e hispânicos. Havia ainda uma crueza nas ruas que não sei se perdura até hoje. Foi forte ver o embate vezes surdo vezes estridente entre negros e árabes nas grosseries, os sons e cheiros das cozinhas e bares mexicanos, costariquenhos, cubanos. O Spanish Harlem – e o Harlem em geral – é onde um brasileiro carioca ZN consegue identificar mais símbolos e hábitos próximos de sua experiência pessoal: pessoas nas ruas, calçadas com velhos, jogos, som alto, confusão, preços baratos, distância do grande centro.
BRCZ: Teu último projeto de pesquisa fala do Oiticica emigrante e do tempo que ele viveu em NY. Como e por que você se interessou pelo tema ?
Fred: Me interessei pelo tema a partir da minha pesquisa de mestrado, sobre Cultura Marginal no Brasil. Um movimento que englobou áreas como o cinema, a música, as artes plásticas, o jornalismo e a literatura e cujo papel de Oiticica foi central. Acabei descobrindo a obra dele, seus escritos poéticos e decidi estudar esses textos no doutorado. Dentre essa imensidão de textos (HO escrveu mais de seis mil doucmentos) priorizei os anos em NY (Babylon, na linguagem dele), onde HO viveu entre 1971-1978, ou seja, a época barra pesada da cidade. A intenção da pesquisa é mapear essa cidade vivida por Ho, seus passos, seus vícios, sua diversão, seus custos, sua sexualidade e seus dilemas intelectuais e culturais como um artista do terceiro mundo, latino americano, vivendo em Manhattan.
BRCZ: As torres gemeas cairam. O que ainda te atrai em NY ? O que você espera encontrar ?
Fred: o mesmo de sempre: uma cidade alucinada, alucinante, alucinógena, com fartura e pressões, com agruras e prisões, com o mundo e o local. Espero ver uma cidade ferida, preocupada, e por isso mesmo ligada, pujante, prestes a explodir. Espero encontrar o de sempre por aí: a América dona do mundo e suas benesses para nós, que adoramos odiá-la porque, de certa forma, pela cultura pop e a globalização, é um pouco nossa também.
BRCZ: Além de historiador você é músico e DJ. Que ''historia'' é essa de ''Festa Phunk''? Existe uma missão ? Fala do grupo que trabalha contigo, dos diferentes backgrounds.
Fred: a Festa PHUNK! É uma história clássica de como as coisas vão acontecendo sem você perceber e de repente torna-se ''real''. Eu, Simplício Neto e Emílio Domingos, três dos responsáveis pela festa, sempre estivemos ligados produzindo algo juntos. Tivemos bandas, éramos responsáveis por uma rádio na faculdade, e assim fazer a festa foi natural. Mas a festa começou na Lapa em 2002 com Haroldo Mourão, primeiramente, e com Daniela Labra, a outra Dj ao nosso lado. Se existe uma missão? A missão que existe é a de sempre em qualquer área da vida: levar a sério o que for brincadeira e brincar com que for sério. Não somos profissionais de festa, somos apenas quatro pessoas que gostam de música e de botar o povo pra dançar. Assim nasceu a festa e o conceito dela: um local para as pessoas dançarem. Sem conceitos, sem rótulos, sem divisões: one nation under the groove! E sobre os backgrounds do grupo, são milhares, porque vão desde crítica de arte até cinema, desde antropologia até literatura.
BRCZ: Aonde você aprendeu a fazer festa? Por acaso foi no mesmo lugar que você aprendeu a escrever história ? (fala da Facu - e da importância do espaço para tua ''formação'' de agitador cultura para além da formação intelectual. Fred: O lugar que me deu ''régua e compasso'' foi o IFCS, o Instituo de Filosfia e Ciências Sociais, onde estudei por oito anos História. Um local fantástico, no coração do Rio de Janeiro, em um prédio com os cursos de Ciências Sociais e Filosofia. Além da troca intelectual, existia uma mistura de classes e cores que fizeram diferença na minha formação. Dentro da Faculdade existia uma rádio, chamado Rádio Pulga. Esse espaço foi onde eu descobri os caminhos da cultura na minha vida, porque conheci uma série de pessoas interessadas em pensar, compor, produzir, escrever e fazer algo além de simplesmente ''passar'' pela faculdade. Ali comecei meus primeiros textos, fundei bandas, fiz músicas, produzi eventos e fiz com a galera minhas primeiras festas. O que sou e faço hoje está diretamente ligado a esse universo e esse espaço.
BRCZ: Quando foi que você finalmente puxou a música pelo braço? A Máquina do Mundo, ainda gira ?
Fred: A música sempre esteve de braços dados comigo, desde garoto. Apesar de não ter músicos na família, sou de uma família que viveu ouvindo música o tempo inteiro. Aprendi com os discos dos meus pais, com as festas de casa. Na faculdade, estudando história, vi que podia associar a música aos meus interesses de pesquisa, me tornando pesquisador sobre música popular. E com as bandas e as festas, foi a vontade de, além de ouvir e pesquisar, produzir música. Dar vazão as suas idéias musicais em todas as frentes possíveis. A música é o centro da minha vida.
BRCZ: E o Rio de Janeiro, continua lindo?
Fred: Continua lindo o que sempre foi lindo: a natureza. Mas a cidade, o urbano, a civilização, essa vai de mal a pior. Ainda bem que, quando tudo mais passar, a Pedra da Gávea e o mar ficarão e nós seremos histórias submersas.
BRCZ: Para conhecer o Brasil é preciso...
Fred: Rebolar. E abrir os olhos para tudo, do sinistro ao divino e maravilhoso.
BRCZ: Dica de viagem: - O que fazer quando o malandro te arroxa?
Fred: Apelar para a boa vontade com muita tranqüilidade ou então mostrar firmeza. Malandro respeita quem olha nos olhos
BRCZ: Uma bibliografia poética.
Fred: Leminski, Waly Salomão, Torquato Neto, Rimbaud, Coetzee, Kafka, Robert Arlt, Fernando Pessoa, Drumonnd, Paulo Henriques Brito, Eucanaã Ferraz e Black Alien e Tom Jobim.
BRCZ: Uma musicografia política.
Fred: Nação Zumbi, Patti Smith, Digital Dubs, B Negão, Stevie Wonder Inner Visions, Bob Marley, Eric B and Rakin, Dj Dolores, Gil Scot-Heron, Jorge Ben e Beck.

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