BRAZILCONZE BRAZILIAN ONLINE MAGAZINE, CULTURAL MAGAZINE Interview, Intrevista
Luiz De Simone - brazilian musician and composer
by Ana Lourdes Alvarenga
BRCZ: Como começou teu interesse pela música ?
Luiz: Quando eu tinha 12 anos comecei a escutar diariamente uma fita cassete com o concerto para piano e orquestra de Schumann. Depois de conhecer cada segundo da música e foi inevitável querer começar a estudar piano para poder tocá-la um dia. Comecei estudando sozinho, aprendi a ler música e comecei a escrever minhas próprias peças. Alguns meses depois, quase com 13 anos de idade, tive minha primeira aula de piano. E desde então o tesão por tocar e especialmente criar música tem sempre me acompanhado.
BRCZ: Por que ainda é tão difícil fazer música clássica no Brasil?
Luiz: A música clássica não é fruto da cultura brasileira. Ela vem de fora, importada. Ela é feita por e para as classes mais abastadas (leia-se 5% da população brasileira). É claro que está aberta a todos e por vezes um evento assume tal porte na mídia que é possível vermos milhares de pessoas assistindo gratuitamente a um único concerto ao ar livre. São eventos únicos, vultosos, que por isso recebem apoio do governo estadual ou municipal e muita propaganda. Mas os ótimos concertos de música clássica do dia a dia, são freqüentados por poucas pessoas, e não recebem da mídia a divulgação e atenção merecida. E na realidade são esses concertos bem diferentes dos vultusos ou espendiosos ao contrario dos grandes isolados, que alimentam a vida cultural da cidade e estimulam os músicos a continuarem tocando e poderiam realmente educar a população .
BRCZ: Existe alguma política de divulgação desses concertos pela secretaria municipal de cultura ou educação nas escolas do Rio de Janeiro? Existe alguma parceria entre entidades como a Escola de Musica, ou a Villa Lobos e as escolas publicas do Rio de Janeiro?
Luiz: As salas de concerto com maior capacidade de público, salvo quando temos um grande nome internacional ou músicos brasileiros renomados internacionalmente, estão de modo geral vazias. Os estudantes de música sofrem com isso, pois acabam não tendo onde tocar e a falta de oportunidade e estrutura lhes impede de montar uma agenda de concertos que lhes permita ter algum ganho substancial. Muitos acabam sendo obrigados a dar aula e de modo geral o fazem de modo precário, ganhando pouco e sem estrutura, seja nas escolas ou nos conservatórios de música. Ou então previamente desestimulados de tocar musica clássica, passam a tocar estilos de música de maior demanda popular e penetração no mercado, mas aí já não estamos falando de música clássica.
BRCZ: Para além de seus atributos musicais o que é necessário para um músico independente fazer sucesso no Brasil?
Luiz: Quem não faz acontecer não acontece. Eu sou meu próprio relações publicas e agente. Estou sempre criando projetos e correndo atrás de concertos e novas possibilidades. Mando cartas para o Brasil todo em busca de oportunidades. Considero importante ser autêntico ao meu estilo e assinatura. Criar não só música, mas também uma identidade como intérprete. De qualquer modo, com essa marca ou não, não podemos ficar parados esperando as chances caírem do céu.
BRCZ: Em 2004 você tocou mais no exterior do que no Brasil. Como você conseguiu se projetar internacionalmente?
Luiz: A primeira vez que fui a Europa, na segunda metade de 2004, fui sem nada. Bati de porta em porta. Mandei e-mails, cartas, enviei CDs para diretores de escolas, teatros, embaixadas brasileiras, associações culturais... Primeiramente consegui 3 apresentações: duas em Paris e uma em Lyon. Fui também a Alemanha onde outras portas, se abriram e acabaram me levando de volta ao Velho Continente no meio de 2005. Me apresentei em mais cidade da França e da Alemanha, com destaque para o recital no Museu de Instrumentos Musicais de Munique. Isso tudo foi conquistado por pura insistência e persistência da minha parte e a ajuda daqueles que gostaram e acreditaram no meu trabalho em Paris e na Alemanha.
BRCZ: Você se tornou um ''habitué'' na França e Alemanha. Não é dura essa vida de relações públicas e agente de si mesmo? Qual platéia te motiva mais?
Luiz: ''Habitué''? É preciso se organizar para dar conta de tantos contatos e ter muita garra e paciência para buscar resultados. E tem dado certo. Já tenho vários convites para retornar a Europa no segundo semestre de 2006, onde me apresentarei em mais cidades e provavelmente em outros países. Se a gente não faz pela gente, ninguém faz. Sinceramente não sei dizer onde a receptividade foi maior ou onde fiquei mais empolgado para tocar. Creio que foi tudo mais ou menos na mesma intensidade, tanto da minha parte quanto do público.
BRCZ: O lugar ideal : Carnegie Hall, Opera de Paris, ou o Teatro Municipal? Acompanhado por Maria Calas ou Rita Lee?
Luiz: Se eu não pudesse de jeito nenhum ficar com os três acho que escolheria a Opera de Paris. :)
BRCZ: Muitos pianistas acabam se especializando em ''jingles'' para políticos. Você, filho de mineiro... huuuuummmm me conta do Marcos Valério... (risos)
Luiz: (risos) Não, não conheço o cara. Nunca fiz jingles, mas não hesitaria em fazer como forma de ter um ganho paralelo '' honesto''. Acho ótimo quando os músicos brasileiros conseguem criar alternativas dentro da própria música. O chato é quando por causa do alto custo de vida, esse trabalho paralelo acaba virando o ganha pão e não sobra tempo para mais nada. Mas se o caso é fazer ''jingles'' por paixão, ai é outra história.
BRCZ: Quem é Maximiliano e o que ele representa para você hoje?
Luiz: Maximiliano foi um jovem muito talentoso que aos 22 anos faleceu de câncer. Ele representa a fé nos sonhos e uma história de luta pela vida. Sua obra ainda hoje é executada pela banda Fusão, da qual faço parte. Seu disco é admirado e sua venda gera renda para o Instituto do Câncer do Rio de Janeiro. Ter conhecido o Maximiliano e tê-lo acompanhado sua tragetória me fez uma pessoa diferente. Sou grato por ter aprendido tanto sobre a vida com ele e por saber intimamente, agora, que não importa quanto tempo vivemos, mas sim o que fazemos de produtivo com o tempo que nos é dado. O que fazemos ou deixamos de fazer, é o que marca o mundo, seja palpávelmente, na forma de obra, ou seja etéreamente, na forma de memória.
BRCZ: Três dicas de música instrumental boa, bonita e barata no circuito Rio – Paris - Munique.
Luiz: No Rio, indico a Modern Sound, em Copacabana, onde tem show toda noite e toda a tarde um pianista maravilhoso de uma sensibilidade extrema, cego, fica levando som; Em Paris: sexta e sábado no Polly Magoo, em Saint Michel, ou no l' Entrepôt, no 14ème; Em Munique: as matinês do Museu de Instrumentos Musicais, na St. Jacobs Platz, ou uma opção mais light no Unopiù Espresso Bar, na Goethe Platz, onde rolam uns showzinhos legais sexta e sábado.
BRCZ: Um músico francês, um compositor brasileiro e uma cerveja alemã. Por que?
Luiz: Que pergunta insólita. O pianista René-François Duchable, Chico Buarque e Paulaner Weiss. Porque são bons! :)
BRCZ: Quando a música erudita encontra o rock progressivo? Você e o Rock ?
Luiz: O rock progressivo é muito inspirado em música clássica, tanto na forma como na complexidade instrumental. Eles se encontram quando músicos eruditos resolvem tocar rock (coisa muito comum) e vice-versa. A banda de rock progressivo Sigma 5, da qual faço parte não tem muito compromisso com música erudita .Mas eu, isoladamente, tento fazer uma síntese da minha bagagem de rock progressivo com minha experiência de músico clássico. De alguma forma minhas músicas tem elementos que caracterizam ambos os estilos. Quando faço recitais mais diversificados (como tem sido ultimamente) de fato vejo na platéia o público comum de concerto e também uma garotada rockeira, altamente interessada em música erudita. Espero ir mais longe nessa mistura e na busca de uma linguagem pessoal que leve em conta tudo aquilo que eu curto ouvir e aprecio como música.
BRCZ: Você é a prova viva que os ''mitos do piano'' do tipo ''12 é muito velho pra começar a tocar'', ''pianista no Brasil morre de fome'', são MITOS.
Luiz: Ainda falta muito para que eu possa dizer isso. Eu tento ao máximo driblá-los e encorajo estudantes a seguir contra eles. Por ter começado mais tarde encontro algumas dificuldades como pianista, mas tento constantemente superá-las. Estudo muito, mas não posso afirmar que deixei de te-las. Quanto a morrer de fome... o campo de trabalho existe, apenas é muito limitado e de difícil penetração. Mas quando você faz um bom trabalho e se dedica às suas metas os resultados aparecem, seja no palco, tocando, ou dando aulas. Os mitos... As dificuldades estão presentes em todos os campos profissionais.
BRCZ: Para que serve a música? De onde vem tua consciência social?
Luiz: Não pretendo mudar o mundo, senão deixá-lo um pouco menos feio. Acho que a música, assim como a Arte em geral, serve para tirar as pessoas de sua anestesia cotidiana, despertando-as para algo maior. É uma maneira de deixar os seres humanos despertos e atentos à sua própria humanidade. Quando sou convidado para fazer um concerto beneficente aceito de bom grado e me sinto bem fazendo isso. Minha relação com Arte é muito pessoal e subjetiva.
BRCZ: Há quanto tempo você leciona no Conservatório Brasileiro de Música no Rio de Janeiro? Conta um pouco da tua experiência como Professor. Você já teve algum aluno negro?
Luiz: Dou aulas no CBM desde 1997, quando ainda era aluno da graduação. Já viajei por diversas cidades do Brasil, trabalhando pelo Conservatório, aplicando provas para as escolas em convênio de ensino à distância e dando aulas (e recitais, naturalmente). Foi muito gratificante e sempre fiquei muito feliz por conhecer os alunos de toda parte, bem como interagir com os problemas e virtudes de cada região. Já tive alunos negros sim, mas nunca no Rio de Janeiro. Convivi com alunos de todas as raças pelo interior do país. Para falar a verdade nunca parei para pensar nisso e nem tinha me dado conta de que não tive um aluno negro aqui no Rio. Mas vejo isso como coincidência e não como um dado muito significativo, mesmo porque não tive tantos alunos assim em minha carreira como professor, pois sempre fui mais voltado para a performance.
BRCZ: O que você sentiu e o que passou pela tua cabeça na primeira vez em que se apresentou fora do Brasil?
Luiz: Me senti orgulhoso e muito feliz. Tocar na Europa é um sonho antigo, certamente compartilhado por diversos músicos como eu, e ver isso se concretizando parece um sonho. Mas a gente cria um bicho de sete cabeças, e depois vemos que não há razão pra isso. O cenário é outro, as pessoas são outras, mas a ligação musical entre platéia e músico é sempre semelhante. Costumo falar por mais ou menos 15 minutos em cada concerto e encarar o francês e o alemão contar as histórias de sempre em diferentes línguas,por vezes era o que mais me deixava mais nervoso. E que o meu maior nervosismo seja sempre com a língua e não com as músicas que eu tenho que tocar. (risos)
BRCZ: Quando eu te pego no JFK?
Luiz: Por mim seria na semana que vem! (risos)
BRCZ: Conheça mais sobre o Luís e confira updates nas datas de shows e eventos @ http://www.luizdesimone.com

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