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Marcelo Santiago
by Ana Lourdes Alvarenga

Marcelo Santiago é um dos novos talentos despontando na Cena do Cinema Brasileiro. Depois de dirigir vários curtas "figurinhas de festival " como OS FILHOS DE NELSON" e A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MULHER QUE MUDOU DE COR, Marcelo Santiago deu luz ao seu first feature - 'Dancing in Utopia' ou 'Sonhos e desejos’ onde ele aborda - amor, clandestinidade e política. Confinados em um aparelho em Belo Horizonte três militantes - uma jovem estudante, um bailarino de rosto coberto e um professor de literatura - confrontam suas opções políticas e afetivas que envolvem desejo, traição e lealdade. Nessa entrevista BRCZ e Marcelo fazer um bate bola sobre orígens, arte, eleições e Zé Dirceu. Aqui Marcelo refuta críticas e fala de suas impressões sobre NYC onde 'Dancing in Utopia' foi lançado na já tradicional Premiere Brasil Film Fest realizado no MOMA last july. Quando você ler essa entrevista Marcelo vai estar retornando do Festival de Cinema Gramado sorrindo - seu filme teve premiação dupla: Melhor Direção de Arte com Oswaldo Eduardo Lioi e Melhor Atriz com Mel Lisboa. Parece que esse é só o começo... BRCZ - Santiago, onde começam tuas orígens? Marcelo - Nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 27 de março de 1961. Ano da posse e da renúncia do Jânio Quadros. O dia é o mesmo do Tarantino e da Xuxa. É também o Dia Internacional do Teatro. Talvez seja por isso que eu comecei fazendo teatro, desde criança, depois na escola. Estudei Medicina, mas larguei por causa do teatro. Não gostava do provincianismo de BH e com 18 anos fui morar em São Paulo. Fiz um pouco de teatro lá, mas a cidade me esgotou e resolvi mudar pro Rio. BRCZ - Como aconteceu aproximação com o cinema? Marcelo - Então, chegando no Rio, eu não conhecia ninguém, não tinha dinheiro pra nada porque teatro não dá mesmo muito dinheiro. Queria trabalhar com arte de qualquer maneira, mas estava difícil. Achei que eu precisava de um diploma de 3o. grau pra acertar a vida. Fiquei sabendo que em Niterói tinha a UFF (Universidade Federal Fluminense) que tinha um dos únicos cursos superiores de Cinema do Brasil. Fiz vestibular e passei. BRCZ - Quando virou profissão? Marcelo - Entrei para a faculdade já velho (29 anos), em 1990. Já no segundo semestre, na aula de Roteiro, escrevi algumas coisas que fizeram sucesso com o professor e os colegas. Comecei a arrumar roteiro de institucional para fazer, até dentro da própria faculdade – arrumei uma bolsa de trabalho, ganhava um salário mínimo pra escrever roteiros de institucionais para o Núcleo Audiovisual de lá. BRCZ - Curtas em poucas palavras? Marcelo - Uns 3 curtas na UFF, em 16 mm. Depois, com as sobras de um longa que eu tinha sido assistente de direção, fiz meu primeiro curta 35mm – 45% CINEMA URBANO – muito experimental e livre. Quase ninguém viu. Depois fiz um chamado OS FILHOS DE NELSON que participou de muitos festivais, inclusive aí nos EUA em Chicago e LA. O 3o e último foi o A INCRÍVEL HISTÓRIA DA MULHER QUE MUDOU DE COR que não saiu do Brasil, mas participou de muitos festivais nacionais. Espero fazer mais. BRCZ - Sonhos e Desejos de um cineasta... Como foi parir um longa? Marcelo - Foi muito prazeroso. Acho que eu estava psicologicamente bem preparado para isso – é importante estar preparado, senão você descamba, ou achando que é deus, ou se deprimindo por não conseguir fazer o que quer, ou até caindo no abismo de não saber o que fazer. Mas eu me equilibrei bem nessa corda bamba. Estava na hora também, depois de 13 anos trabalhando como profissional no cinema. BRCZ - Fica mais fácil falar de desejo tendo como co-autora uma mulher? Marcelo - Acho que o desejo não muda com o sexo – homens e mulheres desejam igual. As diferenças, as nuances são de indivíduo para indivíduo. Mas no caso do filme, foi fundamental trabalhar com 2 co-roteiristas – a Carolina Monteiro de Barros e a Flávia Orlando – porque o personagem central é uma mulher. A mulher tem formas muito específicas, reações muito específicas, jeitos de falar e de calar. BRCZ - "Dancing in Utopia" acabou de ser lançado em NYC, na já "tradicional" Premiere Brasil no Moma. Por que vc decidiu lançar o filme por aqui? Marcelo - Partiu de um convite da Premiere Brazil. Eu e os produtores achamos que seria bom para a divulgação do filme. No Brasil, quanto mais respaldo internacional você tem, mais respeitado você é – respeitado no sentido de uma boa vontade para com o seu trabalho. Uma premiere mundial no MoMA dá um pouco desse respaldo. BRCZ - Como NYC recebeu o teu filme? Distribuidor em vista? Novas propostas? Marcelo - A platéia se dividiu. Há quem goste muito – tipo virem pedir autógrafo no final – e há quem saia no meio. Quem espera um filme de ação ou um filme todo amarradinho, quer dizer, causa e efeito, ou seja, um filme clássico, não vai gostar. Quem gosta de um cinema mais de fruição, menos racional, um filme que você pode sonhar e desejar junto com a projeção, acho que vai gostar. BRCZ - Como você percebeu NYC? Marcelo - NY é uma cidade linda, deslumbrante mesmo, muito agradável e muito rica. Muito mais quente que o Rio de Janeiro, mas tudo bem. Mas é uma cidade sob o domínio da ordem – tudo e todos estão no lugar que todos esperam que estejam, todos se comportam dentro do que se espera, com suas individualidades, mas organizadamente e solitariamente. Por isso, acho uma cidade careta, certinha demais, e isso me incomoda um pouco. Jamais moraria em NY, mas é uma delícia para passear. BRCZ - Te incomoda transgredir para ter prazer ? É você um filho da lei, ou o que te incomodou mesmo foi perceber que para 'sobreviver' aqui você teria que virar um marginal na clandestinidade ? Eu não preciso transgredir para ser feliz. Já experimentei todo tipo de transgressão quando era mais jovem, algumas muito prazerozas outras nem tanto. Hoje em dia só de vez enquando. Mas em NY é impossível por dois motivos: (1) tudo já foi visto e experimentado, e está muito bem catalogado; (2) vive-se aí no império da segurança, DO POLICIAMENTO, a todo momento vc está sujeito a tomar esporro até mesmo de um segurança de loja... Mas VOCÊ TEM razão , eu teria que voltar a ser marginal para tentar sobreviver em NY, mais ou menos como fiz em São Paulo. BRCZ - Recentemente teu filme também foi escolhido para participar do Festival de Gramado. Você já tinha participado do Festival antes? O que você espera encontrar? Marcelo - Participei nos tempos da UFF com um curta 16mm. Adoro o festival e a cidade. Acho que por aqui também o filme vai dividir as platéias, mas como o background histórico – guerrilha no Brasil nos anos 60 e 70 – é muito mobilizador aqui no país, acho que a divisão vai ser mais favorável. BRCZ - Aparentemente as cenas de sexo do filme ficaram mais marcadas pela mídia do que o estória na tela - até que ponto isso te incomoda? Não me incomoda nem um pouco, porque é um filme cujo viés mais importante é o sexual. A sexualidade está em jogo em cada segundo do filme, às vezes sutilmente ou indiretamente, às vezes explícita como nas cenas de sexo. Eu pessoalmente gosto muito de sexo e acho o sexo plasticamente muito bonito. Então, eu fiz essas cenas especialmente inspirado e gosto que elas apareçam. BRCZ - Incomodou ao público? Por que? Marcelo - Acho que não incomoda nem um pouco. As cenas são muito suaves, não vejo como elas possam incomodar. BRCZ - Como Alvaro Caldas recebeu as críticas ao filme? Marcelo - O Álvaro gosta muito do filme. Ele recebeu e vai receber críticas como eu, ou seja, sem ansiedade e sem insegurança. Eu e ele sabemos o trabalho que fizemos e estamos publicando esse trabalho corajosamente, como todo artista tem que fazer. BRCZ - Depois de 13 anos trabalhando com os Barretos ... o que falta aprender? Marcelo - Do ponto de vista criativo, acho que no cinema quando você acha que sabe fazer alguma coisa, você descobre que não sabe coisa nenhuma depois de ver um trabalho pronto. Estou falando de um cinema mais investigativo, mais autoral, sem fórmulas. Acho que me falta aprender a fazer um cinema cada vez mais universal, cada vez menos preocupado comigo mesmo. BRCZ - O que você tem para ensinar? Dicas para a "mais nova geração". Marcelo - Só o trabalho ensina – é um chavão, mas é verdade. A dica é não parar de trabalhar, independente de mercado de trabalho. Trabalhar nem que seja para ter só a si mesmo como público. BRCZ - Em 15 anos - o que mudou na indústria cinematográfica brasileira? Marcelo - Nesses últimos 15 anos, o cinema brasileiro se aprimorou muito tecnicamente. Os roteiristas estão escrevendo melhor, os diretores dirigindo melhor, os produtores produzindo melhor, os técnicos trabalhando melhor. Do ponto de vista criativo, acho que não mudou nada. Na verdade, dos anos 70 para cá houve uma involução criativa – acho que no mundo inteiro, mas muito marcadamente no Brasil. Os filmes perseguem uma estética limpinha, de fácil aceitação. Tentamos fazer no cinema o que o Brasil não é em sua essência. Mesmo um filme como Cidade de Deus, por exemplo, que é excelente, mostra exatamente o Brasil idealizado, a violência bonita, estetizada. É muito difícil você conseguir que um filme com uma visão mais pessoal de realidade seja visto, como os filmes do Sérgio Bianchi, por exemplo, que explicitam a sordidez do brasileiro. BRCZ - Quem te inspira ? Por que? Marcelo - O Kubrick dizia que era influenciado por tudo o que ele via. Eu sinto assim também, as coisas me inspiram e me influenciam à medida em que me agradam com profundidade em cada momento meu de vida. BRCZ - 5 cinematográfos contemporâneos we must know. Marcelo - Abbas Kiarostami, Marcelo Piñeiro, Alfonso Cuarón, Sérgio Bianchi, Jorge Furtado. BRCZ - 5 brazilian movies we must BUY Marcelo - Quanto Vale Ou É Por Quilo (Sérgio Bianchi), O Homem Que Copiava (Jorge Furtado), O Casamento de Romeu e Julieta (Bruno Barreto), Quase Dois Irmãos (Lúcia Murat), Moacir Arte Bruta (Walter Carvalho) BRCZ - Eleições em vista. Para que lado do muro o teu corpo balança? Marcelo - Balança para a necessidade de derrubar o muro. BRCZ - Fatos da politica recente com alto potencial de virar filme? Marcelo - A vida do presidente Lula dá um grande filme – o retirante nordestino que virou presidente da república. BRCZ - O que é que Zé Dirceu vai achar do teu filme? Marcelo - Acho que vai gostar. Com certeza, o Zé Dirceu também trepava na clandestinidade.

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